sobre rosés e amizades

por Sara & Camila

1403366012328 A razão de existir desde post é minha amiga Camila e os vinhos rosés. Camila é minha amiga sommeliére (sommelier feminina 😉 que tem um blog divino sobre vinho). Todo mundo precisa  de uma amiga sommeliére. Não pra virar um enochato. Pelo contrário. A Camila, minha amiga sommeliére, é aquela que diz que vinho bom é o que você gosta. Ela é especialista em comprar vinhos bons e baratos. E também especialista em indicar um vinho daqueles que vale a pena investir porque você não compra felicidade mas compra, por exemplo, um Roero arnés piemontês. Eu não sou amiga dela porque ela é sommeliére tá. Afinal somos amigas desde a época em que resolvemos comprar vinho de galão de 5L pra vender nas festas no centro acadêmico e acabar com a ditatura da cerveja. Somos tão a favor da diversidade que compramos um galão de seco e outro de suave. A Camila tem um blog sobre vinho, que é também sobre a vida porque vinho é mais do que uma bebida pra ela. A gente quis escrever um post conjunto – porque agora sou dessas que se acha uma blogueira articulada que escreve posts com outras blogueiras. O post saiu fácil. Fácil, leve e gostoso, como aquele rosé que a gente tanto gosta. Mas como rosé é mais do que vinho. Vinho é mais do que bebida. E bebida é mais do que líquido. Antes de postar o post que fizemos tenho que contar algumas coisas…

Eu me considero uma pessoa de muita sorte. Também sou dessas que tem azar. Vivo achando que tem coisas que só acontecem comigo. O banco bloqueia minha senha online quando eu moro no exterior e a única maneira de resolver é indo à agencia mais próxima. Perco só uma mão do par das luvas. Compro outro par. De novo perco a mesma mão. Acabo com duas mãos esquerdas (ainda menos azar do que acabar com duas direitas). Espero a neve acalmar pra sair de casa e quando vou sair começa a chover. Não bastando o carro passa por mim e joga água na minha cara. Piso na poça d’água achando que é calçada (chão coberto de neve é um perigo, chão descoberto de neve um perigo ainda maior). Esqueço a carteira em casa justo no dia em que não trouxe almoço de casa. Mas eu não queria falar destas coisas. Queria dizer que tenho é muita sorte. Filha do Mario e da Vivi. Irmã da Ana e do Jorge. Prima de muitos queridos e queridas. Sobrinha de tantos outros queridos e queridas. Amiga de tantos…

Escrever sobre rosé pede que eu escreva sobre os amigos. Na verdade, meus queridos amigos homens que me perdoem: eu vou escrever sobre as amigas. E é inevitável não lembrar de comidas e bebidas delas e com elas. Os brigadeiros e os fondues com as amigas de mais de 20 anos, a Má, Bia, Babi, Pati, Dani, Dé, Elô e Ná. Os bolos e petits gateaus da Julia com as amigas do colegial, Nati, Fer, Re e Má. O refúgio do Chateau Bãr da Maffi e da Camila, a única república da Esalq com mostarda dijon, onde eu e a Ana íamos para tomar de chá de jasmin a vinho, passando por muitas garrafas de conti.  A república Balaio com yakissoba e as famosas yakissobras, macarrão com agrião e atum (um prato muito requintado do cardápio) ao som de Demônios da Garoa e mulheres à beira de um ataque de nervos falando tudo junto ao mesmo tempo: 100, Bossa, Pipok, Binbin, Toxa, Doce, Pre, Re, Tubs. A Bahia com vatapá, acarajé, pirão, sorvete de tapioca, cacau direto do pé, PF no chorinho da Maura com as brutas flores Lu, Lari, Fau, Mel, Carol, Vic, Flora, Michelona, ah, e os cafés com as flores do herbário Cristiane, Adriana, Eveline, Maria (valei-me)… São Paulo que permitiu com que eu reencontrasse desde a Má, a Babi e a Bru dos brigadeiros, a Julia do petit gateau em jantares nos lugares mais deliciosos, a Doce das yakissobras em almoços digníssimos, a Maffi do Chateau em queijos e vinhos. Permitiu que eu dividisse chimarrão com a Ruli e com a Mandai (e com a Paula antes dela voltar pro Acre e depois sumir no mundo), cervejas com a Paulinha, tapiocas com a Má, cheesecake com a Thay e a Mano, descobrir o pan con tomate da Esther, o bolo de  fubá da Camila (mas que é feito pela Zezé) e as panquecas da vizinha Rena. É muito amor. É muita comida e bebida. É muita amizade.

Orono não é diferente. Aqui também já tem as meninas com seus comes e bebes. Não por acaso minhas amizades sempre tem comes e sempre tem bebes… A Kelly me apresentou o mead, um fermentado feito a partir do mel. Fiz falafel com a Kelly. A Rachel faz um pão incrível e comemorou tanto quanto eu a chegada da balança de cozinha que comprei. A Laura me apresentou os peanut butter pretzels e me chamou de babaganoush snob mas mal sabe ela que eu sou uma esnobe da cozinha em geral e não só do babaganoush. Sem contar as meninas que se juntaram para assistir o superbowl na casa da Kate – sem nem contar que a Kate fez um documentário sobre quinoa –  tomando vinho e discutindo das regras do jogo ao consumismo americano. Uma típica noite de superbowl americano.

Antes de chegar no post e nos rosés eu só preciso falar um pouco mais sobre a minha amizade com a Camila. Às vezes eu penso nela e ela em mim ao mesmo tempo sem combinar. A gente lê os mesmos livros por acidente e vai correndo contar uma pra outra: lê tal livro que você vai amar. A gente é capaz de discutir infinitamente sobre política, música, filmes, amores, amizades, ciência, comida, trabalho, vinho, religião. Quando junta a Ana e a Maffi então… A gente concorda em muito. A gente discorda de muito também. Mas a nossa relação é construída numa paixão pela discussão, numa paixão por viver bem com pouco, numa paixão por militar por causas que a gente acredita, seja ela o feminismo ou o vinho rosé. A gente troca mensagens de texto no celular, emails ou mensagens de chat  de facebook como se fôssemos personagens de um livro do Gaarder ou de um samba do Noel. Noel, o Rosa mesmo, talvez pela sua harmonização natural com o rosé. Já devem ser incontáveis os parágrafos que trocamos. Às vezes a gente está tão inspirada pela vida que a gente escreve coisas memoráveis. “A vida não é para meias garrafas” (muito embora esta eu ache que foi da Ana Cláudia. Ana te amamos). “Taça não!!! Flute”. “Queimar sutiã não foi suficiente, teremos que queimar panos de prato”. E ontem. Ah, ontem a gente constatou que de tanto parágrafo que a gente já trocou, a gente sempre está perto e parece que vive a vida da outra. Comemora um parágrafo feliz. Ajuda a mudar pro próximo quando é hora . Inspirada pelo vinho, pela discussão, pelo pequeno prazer de compartilhar mesmo uma aqui e outra acolá Camila me vem com a máxima: “É igual ditado da escola. Pula linha, parágrafo letra maúscula”. [ e eu literalmente faço isto]

Estou quase chegando no post. O post era para reclamar da disponibilidade de rosés aqui em Orono, ME. Só tem rosé de Moscatel. Sei que vai ser doce. Eu poderia escrever um parágrafo longo – na verdade vários – reclamando dos rosés. Eu de fato escrevi pra Camila. Lembrem que a Camila é militante dos rosés (aqui aliás tem post dela sobre a desmistificação dos rosés). Mas é melhor pular a linha, parágrafo letra maiúscula [desta vez, apenas no sentido figurado, o assunto continua o mesmo então vai no mesmo parágrafo, igual aprendi na escola]. Posso comprar um tinto então. Ou posso comprar um branco. Ou posso comprar um rosé e tomar com uma sobremesa cítrica como a minha sommeliére favorita recomendou. Não preciso reclamar da falta de rosés. E também não preciso pesar tudo que vida oferece só porque chegou minha balança de cozinha. Termino tomando um vinho branco. Branco e gelado. Harmoniza com a primavera que começa aqui no Maine ainda com resquícios de inverno: branca e gelada.

2015-03-22

Este é o fim e o começo. O que vem agora foi escrito a quatro mãos e também algumas taças de vinho…

 

Existe uma coisa que se chama amizade… Ela harmoniza muito bem com os vinhos, sejam eles quais forem. Suaves, secos, caros ou baratos, tintos brancos espumantes ou rosés… Eu tenho na minha vida grandes histórias e incríveis estórias aliadas com vários desses tipos de vinho.

Sempre também tentei associar cada tipo novo com uma música, um filme uma situação ou uma comida. Mas o que acaba mesmo acontecendo é associar algum tipo deles com determinados tipos de amigos e situações que vivi ou continuo vivendo!

Por exemplo, DEFINITIVAMENTE meus vinhos doces, suaves, brancos alemães da garrafa azul (ganha um brinde quem souber escrever o nome deles aqui!) estão muito associados à uma amiga irmã da época do colegial! Sim eu sou velha, sou do tempo do colegial! Me lembro que a gente ADORAVA esse vinho na garagem da casa dela enquanto os meninos jogavam sinuca numa mesinha dobrável que tomava lugar do carro que o pai dela tira gentilmente para a gente poder “brincar” lá embaixo enquanto a mãe preparava temaki para todo mundo e esse vinho foi de fato a grande estrela da minha festa de 15 anos junto com esses meninos e meninas dançando a valsa dos 15 casais nos idos dos anos 90 para que depois dançássemos e cantando a todo folego “we’re Always be together however far it seems”

Quando eu penso em vinho tinto eu mal posso completar um post, talvez um dia eu escreva um livro com o nome “sobre tintos e amizades”… Passei pela fase São Tomé da letras e o tinto doce de galão, e a época do tinto seco de mesa no dormitório da faculdade, teve a primeira degustação às cegas com definição de safra e uvas na mesa da casa da fazenda na Itália, alguns namorados, certos restaurantes, uma amiga para tomar sempre Shiraz e aquela outra com quem eu curto compartilhar um merlozinho de leve entre fofocas e reclamações, por aí vai…

O branco, bom isso é um lance de amor próprio, quase uma paixão de mim comigo mesma. É sempre o MEU momento. Um amor além das predileções, é chegar em casa cansada abrir a garrafa tomar uma taça e começar o terceiro round! Ou terminar a faxina abrir a garrafa fazer uma bacia de pipoca e clicar play num Makhmalbaf ou talvez rever aquele Bergman.

A não ser me lembrar daquele fatídico dia em que eu e ela dividíamos um branco especialíssimo do Piemonte. Um Roero arnéis, garrafa MAGNUM (1,5L) simplesmente escorregou da mesa e quebrou como um vidro temperado em pedacinhos mínimos e muitos goles no chão, após termos bebido apenas 1 taça cada uma… Um branco no lixo, uma tristeza profunda!!! Tooooca correr para o mercado 24 horas comprar vinho branco!!!

Aí nessa vida de sommeliére a primeira coisa que sempre me perguntam é o que eu mais gosto de beber, é difícil dizer. Sabe eu gosto de beber vinho! Qual? Aaaahhh aí entra minha resposta típica de engenheira agrônoma: DEPENDE!

E tem mais!!! A coisa toda fica mais complicada quando a gente fala de rosés, vejam bem queridos, o rosé infelizmente é um vinho que sofre um preconceito insano no nosso país. E eu vivo de fato um amorzinho com eles  e tem tantas músicas e tantos livros que pareiam com esses vinhos que fico ultrajada quando alguém torce o nariz quando digo que vou beber um rose!

Além das histórias, livros e músicas, tive o prazer de introduzir e compartilhar grandes e pequenos também, porque no mundo do vinho são tantos rótulos que a gente acaba sim errando muitas vezes, com tantas amigas que me sinto totalmente acalentada todas as vezes que abro uma garrafa e bebo dela mesmo que sozinha. Porque em cada gole eu sempre tenho as minhas meninas para lembrar.

Hoje eu quero mesmo falar disso, sobre o rosé, “azamigas” e a filosofia! De uma forma ou de outra eu fui aos poucos apresentando um vinhozinho aqui, outro ali e fui trazendo ela comigo. Fui fazendo a Sara se apaixonar pelo rosé… Bem não foi difícil, ela gosta de cozinhar, ela não tem preconceito, ela é uma mulher moderna, ela é um curinga!

E você já pensou que num baralho existem muitas cartas de copas e de ouros, outras tantas de espadas e de paus, mas que existe apenas UM CURINGA? Eu tive a sorte de cruzar com o curinga do baralho oposto ao meu e a gente compartilhou muito mais que vinhos muito mais que ideias… e PASMEM continuamos compartilhando hoje e sempre e tanto, e mesmo em  face do maior desencanto a gente se encanta do nosso contentamento! (parafraseando total Joisten Gaarder e Vinícius de Moraes com permissão)

O fato é que um bom vinho rosé instiga a alma e enaltece o cérebro. Ele é o Ás da mesa ele cai bem na piscina ou no happy hour, bem geladinho do jeito que tem que ser. Se você preferir ele fica super bem com uma entrada leve e se sobrar na garrafa acompanhará sem grandes pretensões a salada. Se o almoço for servido na sequência, o grande lance desse vinho é a harmonização pela sugestão dos sentidos… Uma mesa cor de rosa, um prato cor de rosa e um vinho cor de rosa e de repente tudo se equilibra! Salmão, camarão, strongonoff por que não??? Tudo tem a ver com o sugestionamento dos sentidos e um bom papo!

Aí vem um lance, mas e aquele rosé doce frutado da época do preconceito??? Bem, pegue ele e leve à mesa na hora da sobremesa, manda logo no prato um doce cítrico bem ácido e você vai viver uma das magias mais lindas do mundo do vinho, o balanço, o equilíbrio!

E páre de reclamar, se a vida te der um limão faça uma caipirinha??? Não, faça uma torta!!!! E se a vida só te der um vinho rosé doce, torça o nariz??? Não sirva ele com essa torta, aperte o play no CD da Norah Jones, frite a cabeça tentando descobrir quem veio primeiro o ovo ou a galinha e seja feliz! É tudo uma questão de equilíbrio, amizade e bons vinhos!

Enquanto isso vem a Sara [apos ler o texto da Camila] e me diz:

Estou na cozinha. Um caos. Comprei uma balança imaginando que agora posso pesar tudo que a vida me oferecer. Mas a vida é assim. Sempre uma surpresa. Eu de blusa rose, tomando um merlot. Descobrindo que um ovo tem 60g. Meio ovo tem 30. E eu finalmente posso fazer meia receita que exige um só ovo. Não sou de meias coisas. Mas não tenho queijo suficiente pra fazer uma receita inteira de pão de queijo. Mas a questão é eu achava que com a balança eu seria mais ponderada. Mas de repente me vejo rindo e chorando. Polvilho pra todo lado. Potes sem tampa. Um livro sobre consertar bicicletas. Ovo. Óleo. Queijo. Cascas de queijo. Um baralho. Um creme. Um filtro. Alho. Mas não vai alho no pão de queijo. War on drugs em alto som. Eu posso pesar tudo. Mas às vezes, eu não quero pesar. Eu quero ser surpreendida. Eu quero sair do eixo. Chorar na cozinha. Rir na cozinha. E agradecer por ter amizades que são como vinho e só ficam melhor com o tempo. E que com o tempo continuam a me emocionar. Amizade que completa o baralho sem curinga que está na minha mesa da cozinha.

Devaneios na cozinha!

É por isso que só existe 1 carta dessas em cada baralho, é por isso que raras vezes se joga um jogo com 2 baralhos e portanto raras vezes os curingas se cruzam. Mas eles podem completar uma canastra e fazer você ganhar o jogo!

Começamos falando de relacionamento interpessoais, lembramos dos vinhos compartilhados e dos livros largamente discutidos.

Nós nunca bebemos um merlot juntas e o post está pronto mesmo sem a receita de uma torta de limão ou a indicação de um bom rosé.

No entanto ela terminou uma taça de merlot acolá  e eu  terminei de encher a minha  taça desse lado de cá com, olha só mais uma ironia curinguistica, um vinho Zinfandel que veio de acolá!

E todos os dias eu Camila sigo pensando sempre na frase que você Sara, (ou foi a Ana – Não importa foi muito amor e virou lema) sempre me diz: A vida não merece meias garrafas!!!

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sobre simpáticos e ranzinzas

We are looking for you“. Escreve a garota na janela do carro pérola coberto de neve. Noite de Valentine’s day e três garotas saem em busca do roommate desaparecido. Moço, é o seguinte, a gente precisa dele. Diz uma delas ao recepcionista da academia. Uma vai pra um lado, a outra pro outro e a terceira espera na porta. Nada dele. As três garotas decidem ir para o jantar sem ele. No caminho. Alô? Sim, era a gente procurando você, corre! Ele não viu as garotas o procurando, ele não ouviu o anúncio da recepção, não atendeu às ligações, não foi visto pelo rapaz da recepção que foi até o vestiário masculino, mas viu o recado na janela do carro. Aqui na casa onde moro bilhetinhos salvam vidas. Meia volta pra casa pra buscar o desaparecido. Uma dose de tequila pra cada antes do jantar. Pode tomar devagar para apreciar. Tequila 100% agave. Porque nesta cozinha só é permitido coisa boa. E mezcal não é 100% agave também? Ninguém sabe a diferença entre tequila e mezcal, só se sabe que o gosto é diferente, mas a matéria prima não. Talvez sejam de regiões diferentes, talvez sejam feitos de jeitos diferentes. Não dá tempo de descobrir, vamos perder a reserva (mas aqui neste blog simpático e ranzinza tem a resposta. Nota-se que nossas especulações estavam corretas).

Noite de Valentine’s day. Saímos da cozinha para jantar. O restaurante chama Maximos. Um nome um tanto exagerado pelo que serviam lá. O pão é incrível, feito lá mesmo e sempre disponível fresquinho no mercado aqui do lado. Pão de verdade, cascudo, com bolhas que indicam a fermentação cuidadosa. Mas pão regulado. Nunca vi regularem pão em restaurante italiano. Porém também nunca tinha visto colocarem cominho no homus. América, ampliando conceitos culinários desde seu descobrimento. Eu ficava pessoalmente ofendida com o que eles fazem aqui com a pizza. Até me deparar com homus. Homus de feijão, homus de alho, homus de alcachofra, homus de o-que-você-quiser basicamente. Mas o pior é o homus de grão de bico com cominho. Conclusão: homus = pasta. Fica mais fácil de viver assim. Aliás, pizza = prato. Também é mais fácil viver assim. Depois que eu vi – sim, com meus próprios olhos – colocarem mac & cheese em cima da “pizza” cheguei à conclusão de que pizza é sinônimo de prato feito de farinha. Se você pensar que “pizza” é só o local onde você apoia quaisquer ingredientes fica mais fácil. Se você pensar que a América é um local para ampliar conceitos também fica mais fácil.

Enfim. Voltando ao Maximos. O pão (regulado) é o máximo. Sentar numa mesa de verdade, cheia, com pratos, talheres, taças de vinho, copos de água também foi o máximo. Não direi o mesmo da carbonara. Aliás, ouvi dizer que a prova de fogo de um restaurante italiano é carbonara. Relutei a princípio. Afinal um restaurante italiano que não sabe fazer um molho ao sugo decente nem deveria existir (optei por manter este e outros trechos por mais arrogante que eu pareça. Desculpa, eu sou assim). Mas embora eu tenha sentido uma enorme tristeza comendo um macarrão com ovo mexido tenho que admitir que com carbonara você sabe tudo. Neste caso sei que o lugar se preza a usar ingredientes de verdade mas não preza pela consistência. Mas você também sabe se o lugar sabe controlar o sal que sai do bacon ou o que já vem com o queijo. Sabe se eles colocam creme (errado, é cilada!) para que você ache que eles chegaram na consistência certa. Sabe se eles decoram demais para que você se surpreenda com a cara antes de se decepcionar com o gosto. Enfim, você sabe se, com poucos porém bons ingredientes, o restaurante é capaz de servir uma massa perfeitamente crocante e cremosa ou uma massa totalmente desastrosa. Poucos ingredientes, muitas maneiras de errar e estou quase acreditando que carbonara é um teste robusto o suficiente.  E não preciso falar nada mais pois o simpático e ranzinza italiano deste vídeo já disse tudo que o mundo precisa saber sobre carbonara. E mais: no oil please quando for cozinhar sua massa.

Por falar em simpático e ranzinza, hoje eu vi meu pai fazer um café na nova máquina de expresso. Expresso de verdade. Aquele em que o café é moído na hora e submetido à alta pressão. Escorre cremoso e tem uma linda espuma em cima. Eu não sei quando eu me tornei esta pessoa. Que troca receitas pelas redes sociais. A quem os amigos mandam fotos de comida, de fogão, de panelas ou utensílios de cozinha. Só sei que hoje eu me tornei a pessoa que vê – pelo Skype – um café expresso sair da máquina. Amor remoto pela cozinha. Que fique claro que este não foi o motivo da minha ligação. Só sei que de repente eu estava lá. O barulho do moedor era música pros meus ouvidos e a espuma colírio para os olhos…

Ainda falando de simpáticos e ranzinzas eu ouvi uma palestra na universidade. De início fiquei tentando pensar de onde eu poderia conhecer aquele cara. Os óculos apoiados num nariz que me parecia familiar. As mãos falavam mais que a boca. O volume alto da voz que sai da boca. Sarcasmo e ironia incontroláveis combinados com uma arrogância típica de quem divide o mundo entre o certo e o errado. Familiar… Mas daí lembrei de uma professora que tive no mestrado. Alta. Fala alto. Mãos falam mais que a boca. Sarcasmo, ironia, certeza do certo e errado. Familiar… Mas não era da família não. Embora tudo aquilo me fosse familiar. Demorou uns bons minutos para eu perceber que de familiar só o jeito mesmo e não a pessoa. Lembrei da sensação de me perguntar de onde eu conhecia aquela professora. Lembrei da minha resposta. Logo percebi que eu nunca tinha ouvido antes aquele cara que falava sobre dinâmica de populações de pequenos mamíferos em paisagens fragmentadas. Aquele cara sabia do que estava falando. E aquele cara era sério mas não conseguia parar de ser irônico. Ironicamente, a maneira mais fácil de identificar um latino é que  a gente usa “agora estou falando sério” mais do que “estou apenas brincando”. Mas ele só era muito familiar. Ele quer um emprego aqui na universidade. Pensei em alertá-lo sobre a pizza. E sobre a carbonara. Mas não quis ser ranzinza. Ou simpática.

E pra terminar falando de simpáticos e ranzinzas. Estava em busca de uma receita de bolo de chocolate deliciosa que fosse vegana e sem glúten para que todos que aqui moram pudessem comer. Eu pesquisava, mas sempre relutante. Porque bolo de chocolate vegan e sem glúten delicioso era algo que não eu não acreditava que pudesse ocorrer. Mas isso é porque eu sou ranzinza. Um dia desses uma amiga me manda uma receita. É, eu sou dessas que troca receitas nas redes sociais. Começava com “é uma delícia viu”. Terminava com a recomendação de comer o bolo acompanhado de um vinho. Tinha calda de chocolate com azeite de oliva. Segui à risca (e você também pode seguir aqui). Era dessas receitas de bolo que eu gosto: mistura os secos, mistura os molhados, adiciona os molhados aos secos. Ela descreveu que era pra usar um fouet. Gosto de ter que usar o fouet. Também precisa de maple syrup.  Gosto de ter que usar maple.  Aliás, maple foi o tema da outra palestra da semana. Porque aqui é o Maine. E porque aqui no Maine eu tenho uma colega de laboratório que estuda produção de maple. Um fato curioso sobre o maple é que mesmo quando a palestra não é sobre ele, falam dele. Já ouvi em pelo menos duas palestras (sobre outros assuntos) falarem dele. A previsão é que, devido às mudanças climáticas, a distribuição da árvore se restrinja ao extremo norte da América. Infelizmente vai sobrar maple só pro Canadá.  E daí alguém faz piada com o Canadá. E daí alguém fala “estou apenas brincando”. E todos lamentam pela perda do maple. E alguém sugere: aproveitem enquanto vocês podem.

Naquela noite do Valentine’s day saímos do Maximos e voltamos para a cozinha.  Era a prova de fogo do bolo sem glúten e laticínios. 100% de aprovação na casa em que só é permitido tequila 100% agave.  Ganhei até abraço (abraço de verdade). Ficou todo mundo (muito) feliz. Porque comer aquele bolo de chocolate delicioso é sinônimo de felicidade. Aprendi que bolo de chocolate delicioso salva qualquer carbonara desastrosa. Sobrou bolo pro dia seguinte. E como aqui é uma casa em que bilhetinhos salvam vidas achei que tinha que deixar claro que o bolo estava lá pra todos comerem. Porque do mesmo jeito que é sempre bom anunciar “estou apenas brincando” percebi que é sempre bom anunciar de alguma forma que “esta comida é pra todo mundo”.

Gluten free and dairy free chocolate cake. Free 4 everyone. Free love”. 

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Bolo de cenoura, ou sobre como fazer amigos no exterior

Desde que nós, Má e Sara, nos tornamos subcelebridades da blogsfera doutorandas-morando-fora-durante-o-sanduíche-lagosta-kiwi-com-dicas-de-receitas-e-amenidades-e-dia-a-dia (um nicho nada específico como podemos perceber), achamos que o mundo estaria sedento (ou seria faminto?) por um post duplo. Não foi nada difícil escolher o assunto comum: bolo de cenoura <3.

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Nós duas gostamos muito de cozinhar. A Sara gosta mais, e cozinha melhor, do que a Má (frase escrita pela Má claramente). A Má é boa doceira e é conhecida por fazer melhor quindim do mundo (frase escrita pela Sara claramente) mas não sabe fazer um feijão. Não que a Sara seja boa em fazer feijão, mas serve risoto?! Serve, risoto sempre serve. Foco! Temos que mencionar receitas de bolos estão entre as nossas favoritas. A Sara herdou a habilidade culinária dos pais Mario e  Vivi, e a Má da vovó Nena (mas a receita do Quindim é da Tia Carmen). A receita do bolo não é de família, é da internet mesmo. Diz a Má que a receita da (mãe da) Suluço é bem parecida, mas ela deixou no Brasil pois achou que os livros de complexidade e redes eram mais importantes que o de receitas. Já a Sara achou que os livros de modelagem estatística eram mais importantes que seu precioso caderninho de receitas. As duas se arrependem um pouco dessa decisão…

(tambores rufando) Sem mais delongas, aqui está a receita, levemente adaptada:

Ingredientes

3 cenouras

4 ovos

1 xícara (chá) de óleo de canola, milho ou girassol

1 1/2 xícara (chá) de açúcar

2 xícaras (chá) de farinha de trigo

1 colher (sopa) de fermento em pó

1 pitada de sal

Manteiga e farinha de trigo para untar e polvilhar

(Mas o quê? A nossa sintonia é tanta que, sem conversar antes, colocamos só ¾ de xícara de óleo. Não é mentira que – quase – tudo que a Má faz a Sara também faz. E vice versa. A maior parte do tempo sem combinar. Beira o ridículo. Mas é uma das razões do nosso amor <3).

Modo de Preparo

  1. Preaqueça o forno a 180ºC – 365F. Unte uma forma redonda (ou de bolo, ou quadrada – o  que estiver disponível, lembrando que estamos morando na “casa dos outros”, não podemos ser muito exigentes) e polvilhe com farinha de trigo.
  2. Peneire a farinha, o açúcar, o sal e o fermento em uma tigela. Misture delicadamente e reserve. Sim, tem que peneirar!
  3. Lave, descasque e corte as cenouras em pedaços, e coloque em um liquidificador. Adicione os ovos e o óleo, e bata até formar uma mistura homogênea (cerca de 5 minutos).
  4. Junte a mistura do liquidificador à tigela com os ingrediente secos. Misture delicadamente até ficar liso e homogêneo.
  5. Transfira a massa para a assadeira e leve ao forno pré aquecido por pelo menos 30 minutos. Depende do seu forno e em qual hemisfério da Terra você está. Torça pra que a forma seja um pouco menor que o esperado, para que sobre bastante massa para que você possa se deliciar enquanto espera o bolo assar (sim, nós duas amamos a massa do bolo, quase mais do que gostamos do bolo).
  6. Desenforme e faça pequenos furos com um garfo com o bolo ainda quente, para que a cobertura penetre na massa (veja foto ilustrativa abaixo).
  7. Espere esfriar, coloque a cobertura e seja feliz!

(Fonte: http://panelinha.ig.com.br/site_novo/receita/receita.php?id=180)

E a cobertura? Bolo de cenoura feito por brasileiras não poderia ser diferente: um maravilhoso e típico brigadeiro. De preguiçoso mesmo, pra ficar mais pro mole e escorrer dentro do bolo. Leite condensado, manteiga sem sal e cacau. Nota: cacau de boa qualidade, lógico; não nos venha com chocolate em pó.
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Na Nova Zelândia foi aprovado por: dois catalões, um americano, um boliviano, uma canadense, três kiwis, e uma francesa. Sem querer me achar mas já me achando, três pessoas disseram que foi “o melhor bolo que eu já comi na vida”.

Na América foi aprovado por todos os moradores (não alérgicos à glúten) da casa da branca na avenida da floresta e rendeu à Sara o título de “melhor roommate de todos os tempos”.

Ou seja, aprendemos que pra fazer amigos na gringolândia, basta fazer um bolo de cenoura! Bolo de cenoura. Simples assim. O bolo serve para aquecer no frio do Maine, ou refrescar no verão neozelandês (média de 23C – 73F, mas verão mesmo assim). E sim, obviamente após escrever este texto, as duas blogueiras doutorandas-morando-fora-durante-o-sanduíche-lagosta-kiwi-com-dicas-de-receitas-e-amenidades-e-dia-a-dia foram o quê? Para suas respectivas cozinhas assar bolos de cenoura. Afinal, de estômago vazio não se faz um doutorado!

Blog do sanduíche lagosta da Sara: https://cronicasdeumalagosta.wordpress.com/

Blog do sanduíche kiwi da Má: https://zelandiando.wordpress.com/

crônica de uma neve anunciada

Corram para suas casas. Nevasca a caminho! Não esqueça de estocar o vinho.

frase de Marina Doce

E lá vem ela. Só se fala nela. Falta d’água? Crise energética? Tarifa a 3,50? Não, ela a nevasca! Há rumores de que até lá no calor dos trópicos falaram dela. Talvez pra esfriar a cabeça. Esfriar a cabeça. Caminhada durante a tempestade de neve. Conversa casual durante a tempestade de neve:

– Com o que você trabalha mesmo?

– Diversidade de plantas em florestas tropicais

– Ah, sim, agora entendi porque você veio parar aqui no Maine, a meca dos trópicos

Não importa o caminho que eu siga. Sempre cruzarei com ironias. Da série perguntas que já ouvi: Do you have snow days in Brazil? Impera nessas terras do Norte a noção de que tudo que aqui acontece acontece também no resto do mundo. Michael Jackson aconteceu. Filmes da Disney aconteceram. Lanches do McDonalds aconteceram. Mas snow days? Não. Não acontece no resto do mundo e particularmente numa região chamada Trópicos é bem raro. Então não tem nem neve no seu país? Tem neve de algodão dentro do shopping como decoração de Natal. Então no Natal do Brasil não tem neve? Mas vocês comemoram o Natal no Brasil? E você disse que dia de ação de graças não se comemora, mas Natal você está dizendo que sim. Não tem neve mas tem Natal? Nossa, aqui deve ser mesmo muito diferente pra você.

Alerta vermelho. Previsão: 24 h de neve. Ventos uivantes. Não sair de nariz descoberto. Cobrir as orelhas. Jamais sair com as pontas dos dedos expostas. Estocar alimento suficiente para três dias. Ih! Não deu tempo de ir ao supermercado. Compra relâmpago pré-tempestade no mercado em Orono: vinho, mix de folhas e queijo. Tudo que o dinheiro do bolso podia pagar e a mochila carregar. Calma mãe. Depois peguei uma carona e fui ao supermercado comprar mais comida. Vagem, ovo, açúcar, earl grey. Mencionei que comprei mais queijo? Ah, e azeite. Embora eu ainda tivesse meia garrafa. Pode me chamar de pessimista, mas meia garrafa de azeite pra mim é como um meio vazio. Calma mãe. Juro que minha despensa estava cheia de outras coisas também.

Nevasca. Hora 6 de 24. Ventos uivantes. Hora 12 de 24. Bolo de chocolate para esquentar a cozinha (receita aqui). Hora 13 de 24. Alimento uma raiva do forno elétrico que queima o topo do bolo mas não assa o interior. Hora 13,2 de 24. Bolo assado com topo queimado. Nada que uma calda de chocolate não salve (momento triste em que lembro que o bolo acabou). E segundo Steve, meu amigo de casa: nada que um sorvete de baunilha não salve (momento prazeroso em que lembro que o sorvete não acabou). Hora 13,3 de 24. Ir até o centro da cidade comprar sorvete. Não há tempestade de neve que impeça uma conveniência de posto de abrir. Nota: aparentemente tempestade de neve não impede a cervejaria local de abrir. Nota: jamais sair na tempestade de neve apenas com o dinheiro do sorvete. Foco. Hora 13,4 de 24 agradeço à Orono, cidade civilizada, por vender sorvete de baunilha de qualidade na conveniência do posto. Hora 14 de 24. Todos os moradores não alérgicos a glúten e lactose comem bolo de chocolate com cobertura de chocolate, sorvete de baunilha e calda de framboesa (cortesia da amiga de casa Rachel). Hora 14,1 de 24. Todos os moradores alérgicos a glúten choram em seus quartos. Desafio: descobrir uma receita de sobremesa deliciosa sem glúten ou derivados do leite que todos os moradores da casa branca na avenida da Floresta possam comer. Aceito sugestões!

Nevasca. Hora 24 de 24. A neve não parou. Mas o snow day off foi ontem. Hoje todas as vidas voltam ao normal. Não teve tanta neve como previsto. O vento não uivou como previsto. Não faltou luz como previsto. Não perdi o nariz. Não precisei usar todo o azeite estocado. Mas o estoque de vinho ficou desfalcado. O de queijo também. O correio não veio no dia da nevasca. Mas o correio veio no dia seguinte. E eu tenho que terminar contando que eu tenho um grande amigo, o Rodrigo. O Rodrigo é assim que nem eu, acredita que um bom misto quente é aquele que você passa manteiga do lado de fora do pão e faz no tostex de ferro na chama do fogão. O Rodrigo gosta de tomar cerveja depois de um dia cheio. O Rodrigo também gosta de tomar cerveja depois de um dia vazio. O Rodrigo é aquele cara que sempre tem uma história de uma dificuldade que ele passou para fazer os amigos rirem. O Rodrigo me tirou no amigo secreto de cartões postais da nossa turma. O Rodrigo assim como eu teve muita dificuldade para postar o cartão postal no posto do correio. Eu só não fui a última do grupo a postar porque o Rodrigo estava no grupo. E finalmente no dia em que as vidas voltam ao normal eu fui surpreendida pelo postal do Rodrigo. E depois de sobreviver à neve anunciada deixo aqui minhas recomendações de sobrevivência: bolo de chocolate e vinho. E amigos.

não cozinho por hobby

0126150911 Nota: esta crônica é adaptada do primeiro e-mail que escrevi a algumas pessoas queridas dando notícias sobre a vida no gélido porém caloroso Maine.

Arrumando as malas nos últimos minutos. Pai e mãe, cuidem do meu fermento de pão! Não esquecer do passaporte, passaporte é o mais importante. Tio, cuida do meu kefir! Pegar todos os cartões de banco. Irmão, use esses pinoles enquanto eu estiver fora! Todos os documentos do doutorado: ok. Irmã, leva esses chás! Computador, celular, carregador do computador, carregador do celular. Cunhada, usa meu maçarico senão ele vai se sentir sozinho! Cachecóis, uma mala só para cachecóis.  Ah, irmão: use o açafrão na geladeira! Sapatilha de ballet. Pai, não esquece de levar o capacete da bicicleta. E a Sara, pegou tudo? Nota do futuro: Sara não esqueceu de nada. Ou talvez só ainda não lembrou do que esqueceu.
Fecha a mala. Entra e sai da cozinha amarela e florida. Abraça forte. Engole o choro. Elevador. Carro. Aeroporto. A correria faz parecer que é só mais uma viagem em que a mala a fazer foi deixada para última hora. Mas essa é uma longa viagem. De São Paulo, SP para Bangor, ME. Destino final: Orono, ME. Sim, Maine. Aquele estado que é nos EUA, mas parece que é no Canadá. Sei que lá tem lagostas. Sei que lá tem o Stephen King. Ouvi dizer que dependendo das condições climáticas dá até para ver a aurora boreal. Sei que lá tem a University of Maine. Sei que lá tem o Brian McGill (Parênteses para explicar que o Brian McGill é um ecólogo dos bons que trabalha com coisas parecidas com as que eu trabalho – na verdade é o inverso tá – e que aceitou me receber e colaborar com a pesquisa do meu doutorado. Então eis que o governo brasileiro me deu uma bolsa para um programa chamado sanduíche pra dar um sabor a mais ao tal do doutorado. Então eis que no meio do meu sanduíche apareceu um blog).
Saguão do aeroporto de Bangor. Mas e a mala? A esteira está ali no saguão. Qualquer um chega no aeroporto no mesmo lugar onde você pega a mala. Todo mundo ao redor da única esteira. Todo mundo chegando do mesmo vôo. Todo mundo esperando gente do mesmo vôo. Todo mundo pisa no mesmo carpete verde musgo. Democrático. Livre. É, chegamos na verdadeira América. Pessoas sorrindo. É, chegamos no Maine. Mas ainda temos que chegar ao destino final: Orono, ME. Quando chego na casa: pessoas sorrindo e cozinhando. Lava, corta, frita. Todo mundo na cozinha. Só se fala na tempestade de neve que vem. Neve! Precisa colher o que tem no quintal! Se não colher a neve vai cozinhar antes que a gente possa cozinhar. Menta, brócolis, couve de bruxelas, kale. Kale? Nota mental: descobrir a tradução de kale. Nota mental: parece uma couve só que mais duro. Nota do futuro: segundo o dicionário kale é um tipo de couve, com folhas mais espessas e de margem ondulada (e não descobri equivalente em português). Primeiro fim de semana no Maine: colheita antes da neve, neve, cerveja, caminhada na neve, jogo de cribbage (em breve uma explicação do que é o cribbage), tirar a neve do caminho de casa (shovling em inglês, verbo nunca dantes conjugado pela minha pessoa). Welcome to Maine!
Agora, por que sair de São Paulo e ir para Orono? A pergunta que mais ouvi até então. A segunda pergunta que mais ouvi: “quais são seus hobbies?”. Ouvi só uma vez a pergunta: “como soletra seu nome?”.  Sim, fiz a mesma cara de interrogação que você e respondi: S-A-R-A. Mas os hobbies. Sim, hobbies no plural. Americanos e seu fanatismo por hobbies. Sim, no plural porque um não basta. Ah, como eles levam a sério, sério mesmo. Entram em clubes, grupos de discussão, compram todos os livros a respeito, fazem cursos, sabem quantas horas da semana e anos da vida dedicam à tal atividade. Eu achava que cozinhar era meu hobby. Mas eu cozinho porque eu como. Eu como porque eu preciso. Mas o mais importante é que eu como porque eu gosto de comida. Só não me pergunte qual o tipo de comida que mais gosto. Gosto de comida (boa) ué. Mas não vivo sem queijo, vinho, cerveja, pão, tomate, manjericão e já disse queijo? Eu já criei fermento de pão, kefir, já fiz (quase) tudo que se pode imaginar com um maçarico, já li vários livros sobre técnicas culinárias, já fiz cerveja. Mas parece que para o padrão americano nada disso configura como hobby. Diversão barata (ou nem tão barata assim). O que eu faço no meu tempo livre. O que eu faço quando sinto fome. O que eu faço quando estou feliz. O que eu faço quando estou triste. Não posso fazer nada se fui criada assim. Cortando nhoque. Cheirando manjericão do quintal. Colhendo amora para fazer geleia. Numa casa com panelas de tamanhos industriais. Numa casa com um chinois (porque todo mundo precisa de um) de tamanho industrial (porque eu sou Ribeiro Mortara mas meu sobrenome poderia ser exagero). Filha do Mario do e da Vivi. Sobrinha de seis cozinheiros (sim, incluí o tio que inventou a milanesa de milanesa). Neta da Dona Marta. Dona Marta e sua despensa cheia de vidros de geleia. Mas nunca fiz um curso. Nunca comprei um chinois. Não sei quantas horas da semana gasto cozinhando. Nunca entrei num grupo. É, cozinhar talvez não seja meu hobby, mas é meu estilo de vida.
Se cozinhar é meu estilo de vida não é por acaso que acabei escrevendo sobre o meu sanduíche. Sanduíche? Quando o Brian McGill (aquele do parênteses, meu orientador aqui nesse sanduíche) foi me apresentar na primeira reunião de laboratório explicou que eu estava no meu sandwich year. Como o nome sanduíche faz muito pouco sentido o outro Brian (assim chamado, o outro professor que divide laboratório com o Brian) sugeriu que eu chamasse o meu de lobster year. Lobster year porque aqui no Maine eles não são famosos pelos sanduíches e sim pelas lagostas. Nota mental: Sara, pode ficar tranquila porque no seu novo laboratório as piadas são tão infames quanto no seu laboratório do Brasil.
Se cozinhar é meu estilo de vida não é por acaso que acabei em Orono, ME. Uma cidade de 10.000 habitantes com duas microcervejarias, dois restaurantes tailandeses. Sim, dois de cada. Mas a cidade não é só isso. Tem mais um de cada: um mercado (um porém com vinhos, cervejas, queijos, pães deliciosos, tapioca – pasmem, todos os tipos de farinhas, arroz, condimentos…), um café (com café bom – pasmem), um lugar de hambúrguer, um lugar de sanduíche, um restaurante (supostamente) mexicano, uma (suposta) pizzaria (sem comentários sobre a pizza), uma loja de bicicletas, uma farmácia, uma loja de remos, um studio de ioga, uma feira todo sábado, uma loja de bebidas. Pessoas simpáticas em todos os estabelecimentos. Pessoas usando camisa de flanela xadrez em todos os estabelecimentos. Welcome to Maine!
Se cozinhar é meu estilo de vida não é por acaso que acabei na casa branca na avenida da Floresta, número 32. Pelos meus cálculos 95% das casas de Orono são brancas. Certamente não é por acaso que acabei na casa branca. Cinco pessoas. Dois gatos. Cada um tem seu quarto e todo mundo tem um bom senso de estética, limpeza e culinária. Então a casa é bonita, arrumada e sempre cheira bem porque sempre tem alguém cozinhando. Tem posters dos Beatles, Miles Davis e Jimmy Hendricks nas paredes. Sim, isso é um bom indicativo de que as pessoas escutam música boa e isso em geral acontece na cozinha, o lugar mais frequentado da casa. Ah, a cozinha! Tem luzes de natal o ano todo. Tem panelas de ferro de todos os tamanhos. Tem um bule de ferro só para água do chá. Tem canecas bonitas. Tem chá de todo tipo. Tem tempero de todo tipo. Tem receitas coladas do lado de dentro da porta do armário. Não tem uma faca decente talvez porque a vida não é perfeita. Tem formas de todos os formatos e tamanhos. Tem medidores em gramas, ounces, xícaras e colheres. Tem processador, tem liquidificador, tem máquina de pão, panela elétrica de arroz, máquina de waffle. Não tem um chinoi. Mas sempre tem gente. E sempre que tem gente um gato com fome aparece. Agora além de gato e gente, tem organismos fermentadores sendo cultivados. Fermentadores de pão e fermentadores de iogurte. Minha contribuição para dar mais vida à cozinha.
Parece que dá para fazer um sanduíche, ops, uma lagosta aqui em Orono. Mas ainda não cozinhei uma lagosta. Por enquanto cozinho no café da manhã, no almoço e no jantar. Cozinho ideias do doutorado na cabeça. Cozinho textos do doutorado que num futuro próximo sairão do forno. Cozinho para me manter aquecida no inverno do Maine. Não cozinho por hobby. Cozinho para aprender. Cozinho para sobreviver. Cozinho para me adaptar.
Estou aprendendo. Estou sobrevivendo. Estou me adaptando.
O que mais tenho a dizer até então?
O que eu não gosto daqui: chuva no inverno (chuva a 1°C certamente é pior do que neve a -20°C), do que eles chamam de pizza, do que eles chamam de café, do que eles chamam de abraço, do que eles chamam de suco de limão e vendem no supermercado em garrafas plásticas em formato de limão, do que eles chamam de sistema de medida (porque eu gosto é do sistema métrico!).
O que eu gosto daqui: da cozinha da minha casa, da vista da minha janela do quarto, de cruzar a ponte pra ir pra Universidade, das blueberries do Maine, das IPAs do Maine, de ir à feira aos sábados, de que os seminários de sexta no departamento oficialmente terminam na cervejaria local, e, claro, de discutir com os americanos os benefícios do sistema métrico.