sobre rosés e amizades

por Sara & Camila

1403366012328 A razão de existir desde post é minha amiga Camila e os vinhos rosés. Camila é minha amiga sommeliére (sommelier feminina 😉 que tem um blog divino sobre vinho). Todo mundo precisa  de uma amiga sommeliére. Não pra virar um enochato. Pelo contrário. A Camila, minha amiga sommeliére, é aquela que diz que vinho bom é o que você gosta. Ela é especialista em comprar vinhos bons e baratos. E também especialista em indicar um vinho daqueles que vale a pena investir porque você não compra felicidade mas compra, por exemplo, um Roero arnés piemontês. Eu não sou amiga dela porque ela é sommeliére tá. Afinal somos amigas desde a época em que resolvemos comprar vinho de galão de 5L pra vender nas festas no centro acadêmico e acabar com a ditatura da cerveja. Somos tão a favor da diversidade que compramos um galão de seco e outro de suave. A Camila tem um blog sobre vinho, que é também sobre a vida porque vinho é mais do que uma bebida pra ela. A gente quis escrever um post conjunto – porque agora sou dessas que se acha uma blogueira articulada que escreve posts com outras blogueiras. O post saiu fácil. Fácil, leve e gostoso, como aquele rosé que a gente tanto gosta. Mas como rosé é mais do que vinho. Vinho é mais do que bebida. E bebida é mais do que líquido. Antes de postar o post que fizemos tenho que contar algumas coisas…

Eu me considero uma pessoa de muita sorte. Também sou dessas que tem azar. Vivo achando que tem coisas que só acontecem comigo. O banco bloqueia minha senha online quando eu moro no exterior e a única maneira de resolver é indo à agencia mais próxima. Perco só uma mão do par das luvas. Compro outro par. De novo perco a mesma mão. Acabo com duas mãos esquerdas (ainda menos azar do que acabar com duas direitas). Espero a neve acalmar pra sair de casa e quando vou sair começa a chover. Não bastando o carro passa por mim e joga água na minha cara. Piso na poça d’água achando que é calçada (chão coberto de neve é um perigo, chão descoberto de neve um perigo ainda maior). Esqueço a carteira em casa justo no dia em que não trouxe almoço de casa. Mas eu não queria falar destas coisas. Queria dizer que tenho é muita sorte. Filha do Mario e da Vivi. Irmã da Ana e do Jorge. Prima de muitos queridos e queridas. Sobrinha de tantos outros queridos e queridas. Amiga de tantos…

Escrever sobre rosé pede que eu escreva sobre os amigos. Na verdade, meus queridos amigos homens que me perdoem: eu vou escrever sobre as amigas. E é inevitável não lembrar de comidas e bebidas delas e com elas. Os brigadeiros e os fondues com as amigas de mais de 20 anos, a Má, Bia, Babi, Pati, Dani, Dé, Elô e Ná. Os bolos e petits gateaus da Julia com as amigas do colegial, Nati, Fer, Re e Má. O refúgio do Chateau Bãr da Maffi e da Camila, a única república da Esalq com mostarda dijon, onde eu e a Ana íamos para tomar de chá de jasmin a vinho, passando por muitas garrafas de conti.  A república Balaio com yakissoba e as famosas yakissobras, macarrão com agrião e atum (um prato muito requintado do cardápio) ao som de Demônios da Garoa e mulheres à beira de um ataque de nervos falando tudo junto ao mesmo tempo: 100, Bossa, Pipok, Binbin, Toxa, Doce, Pre, Re, Tubs. A Bahia com vatapá, acarajé, pirão, sorvete de tapioca, cacau direto do pé, PF no chorinho da Maura com as brutas flores Lu, Lari, Fau, Mel, Carol, Vic, Flora, Michelona, ah, e os cafés com as flores do herbário Cristiane, Adriana, Eveline, Maria (valei-me)… São Paulo que permitiu com que eu reencontrasse desde a Má, a Babi e a Bru dos brigadeiros, a Julia do petit gateau em jantares nos lugares mais deliciosos, a Doce das yakissobras em almoços digníssimos, a Maffi do Chateau em queijos e vinhos. Permitiu que eu dividisse chimarrão com a Ruli e com a Mandai (e com a Paula antes dela voltar pro Acre e depois sumir no mundo), cervejas com a Paulinha, tapiocas com a Má, cheesecake com a Thay e a Mano, descobrir o pan con tomate da Esther, o bolo de  fubá da Camila (mas que é feito pela Zezé) e as panquecas da vizinha Rena. É muito amor. É muita comida e bebida. É muita amizade.

Orono não é diferente. Aqui também já tem as meninas com seus comes e bebes. Não por acaso minhas amizades sempre tem comes e sempre tem bebes… A Kelly me apresentou o mead, um fermentado feito a partir do mel. Fiz falafel com a Kelly. A Rachel faz um pão incrível e comemorou tanto quanto eu a chegada da balança de cozinha que comprei. A Laura me apresentou os peanut butter pretzels e me chamou de babaganoush snob mas mal sabe ela que eu sou uma esnobe da cozinha em geral e não só do babaganoush. Sem contar as meninas que se juntaram para assistir o superbowl na casa da Kate – sem nem contar que a Kate fez um documentário sobre quinoa –  tomando vinho e discutindo das regras do jogo ao consumismo americano. Uma típica noite de superbowl americano.

Antes de chegar no post e nos rosés eu só preciso falar um pouco mais sobre a minha amizade com a Camila. Às vezes eu penso nela e ela em mim ao mesmo tempo sem combinar. A gente lê os mesmos livros por acidente e vai correndo contar uma pra outra: lê tal livro que você vai amar. A gente é capaz de discutir infinitamente sobre política, música, filmes, amores, amizades, ciência, comida, trabalho, vinho, religião. Quando junta a Ana e a Maffi então… A gente concorda em muito. A gente discorda de muito também. Mas a nossa relação é construída numa paixão pela discussão, numa paixão por viver bem com pouco, numa paixão por militar por causas que a gente acredita, seja ela o feminismo ou o vinho rosé. A gente troca mensagens de texto no celular, emails ou mensagens de chat  de facebook como se fôssemos personagens de um livro do Gaarder ou de um samba do Noel. Noel, o Rosa mesmo, talvez pela sua harmonização natural com o rosé. Já devem ser incontáveis os parágrafos que trocamos. Às vezes a gente está tão inspirada pela vida que a gente escreve coisas memoráveis. “A vida não é para meias garrafas” (muito embora esta eu ache que foi da Ana Cláudia. Ana te amamos). “Taça não!!! Flute”. “Queimar sutiã não foi suficiente, teremos que queimar panos de prato”. E ontem. Ah, ontem a gente constatou que de tanto parágrafo que a gente já trocou, a gente sempre está perto e parece que vive a vida da outra. Comemora um parágrafo feliz. Ajuda a mudar pro próximo quando é hora . Inspirada pelo vinho, pela discussão, pelo pequeno prazer de compartilhar mesmo uma aqui e outra acolá Camila me vem com a máxima: “É igual ditado da escola. Pula linha, parágrafo letra maúscula”. [ e eu literalmente faço isto]

Estou quase chegando no post. O post era para reclamar da disponibilidade de rosés aqui em Orono, ME. Só tem rosé de Moscatel. Sei que vai ser doce. Eu poderia escrever um parágrafo longo – na verdade vários – reclamando dos rosés. Eu de fato escrevi pra Camila. Lembrem que a Camila é militante dos rosés (aqui aliás tem post dela sobre a desmistificação dos rosés). Mas é melhor pular a linha, parágrafo letra maiúscula [desta vez, apenas no sentido figurado, o assunto continua o mesmo então vai no mesmo parágrafo, igual aprendi na escola]. Posso comprar um tinto então. Ou posso comprar um branco. Ou posso comprar um rosé e tomar com uma sobremesa cítrica como a minha sommeliére favorita recomendou. Não preciso reclamar da falta de rosés. E também não preciso pesar tudo que vida oferece só porque chegou minha balança de cozinha. Termino tomando um vinho branco. Branco e gelado. Harmoniza com a primavera que começa aqui no Maine ainda com resquícios de inverno: branca e gelada.

2015-03-22

Este é o fim e o começo. O que vem agora foi escrito a quatro mãos e também algumas taças de vinho…

 

Existe uma coisa que se chama amizade… Ela harmoniza muito bem com os vinhos, sejam eles quais forem. Suaves, secos, caros ou baratos, tintos brancos espumantes ou rosés… Eu tenho na minha vida grandes histórias e incríveis estórias aliadas com vários desses tipos de vinho.

Sempre também tentei associar cada tipo novo com uma música, um filme uma situação ou uma comida. Mas o que acaba mesmo acontecendo é associar algum tipo deles com determinados tipos de amigos e situações que vivi ou continuo vivendo!

Por exemplo, DEFINITIVAMENTE meus vinhos doces, suaves, brancos alemães da garrafa azul (ganha um brinde quem souber escrever o nome deles aqui!) estão muito associados à uma amiga irmã da época do colegial! Sim eu sou velha, sou do tempo do colegial! Me lembro que a gente ADORAVA esse vinho na garagem da casa dela enquanto os meninos jogavam sinuca numa mesinha dobrável que tomava lugar do carro que o pai dela tira gentilmente para a gente poder “brincar” lá embaixo enquanto a mãe preparava temaki para todo mundo e esse vinho foi de fato a grande estrela da minha festa de 15 anos junto com esses meninos e meninas dançando a valsa dos 15 casais nos idos dos anos 90 para que depois dançássemos e cantando a todo folego “we’re Always be together however far it seems”

Quando eu penso em vinho tinto eu mal posso completar um post, talvez um dia eu escreva um livro com o nome “sobre tintos e amizades”… Passei pela fase São Tomé da letras e o tinto doce de galão, e a época do tinto seco de mesa no dormitório da faculdade, teve a primeira degustação às cegas com definição de safra e uvas na mesa da casa da fazenda na Itália, alguns namorados, certos restaurantes, uma amiga para tomar sempre Shiraz e aquela outra com quem eu curto compartilhar um merlozinho de leve entre fofocas e reclamações, por aí vai…

O branco, bom isso é um lance de amor próprio, quase uma paixão de mim comigo mesma. É sempre o MEU momento. Um amor além das predileções, é chegar em casa cansada abrir a garrafa tomar uma taça e começar o terceiro round! Ou terminar a faxina abrir a garrafa fazer uma bacia de pipoca e clicar play num Makhmalbaf ou talvez rever aquele Bergman.

A não ser me lembrar daquele fatídico dia em que eu e ela dividíamos um branco especialíssimo do Piemonte. Um Roero arnéis, garrafa MAGNUM (1,5L) simplesmente escorregou da mesa e quebrou como um vidro temperado em pedacinhos mínimos e muitos goles no chão, após termos bebido apenas 1 taça cada uma… Um branco no lixo, uma tristeza profunda!!! Tooooca correr para o mercado 24 horas comprar vinho branco!!!

Aí nessa vida de sommeliére a primeira coisa que sempre me perguntam é o que eu mais gosto de beber, é difícil dizer. Sabe eu gosto de beber vinho! Qual? Aaaahhh aí entra minha resposta típica de engenheira agrônoma: DEPENDE!

E tem mais!!! A coisa toda fica mais complicada quando a gente fala de rosés, vejam bem queridos, o rosé infelizmente é um vinho que sofre um preconceito insano no nosso país. E eu vivo de fato um amorzinho com eles  e tem tantas músicas e tantos livros que pareiam com esses vinhos que fico ultrajada quando alguém torce o nariz quando digo que vou beber um rose!

Além das histórias, livros e músicas, tive o prazer de introduzir e compartilhar grandes e pequenos também, porque no mundo do vinho são tantos rótulos que a gente acaba sim errando muitas vezes, com tantas amigas que me sinto totalmente acalentada todas as vezes que abro uma garrafa e bebo dela mesmo que sozinha. Porque em cada gole eu sempre tenho as minhas meninas para lembrar.

Hoje eu quero mesmo falar disso, sobre o rosé, “azamigas” e a filosofia! De uma forma ou de outra eu fui aos poucos apresentando um vinhozinho aqui, outro ali e fui trazendo ela comigo. Fui fazendo a Sara se apaixonar pelo rosé… Bem não foi difícil, ela gosta de cozinhar, ela não tem preconceito, ela é uma mulher moderna, ela é um curinga!

E você já pensou que num baralho existem muitas cartas de copas e de ouros, outras tantas de espadas e de paus, mas que existe apenas UM CURINGA? Eu tive a sorte de cruzar com o curinga do baralho oposto ao meu e a gente compartilhou muito mais que vinhos muito mais que ideias… e PASMEM continuamos compartilhando hoje e sempre e tanto, e mesmo em  face do maior desencanto a gente se encanta do nosso contentamento! (parafraseando total Joisten Gaarder e Vinícius de Moraes com permissão)

O fato é que um bom vinho rosé instiga a alma e enaltece o cérebro. Ele é o Ás da mesa ele cai bem na piscina ou no happy hour, bem geladinho do jeito que tem que ser. Se você preferir ele fica super bem com uma entrada leve e se sobrar na garrafa acompanhará sem grandes pretensões a salada. Se o almoço for servido na sequência, o grande lance desse vinho é a harmonização pela sugestão dos sentidos… Uma mesa cor de rosa, um prato cor de rosa e um vinho cor de rosa e de repente tudo se equilibra! Salmão, camarão, strongonoff por que não??? Tudo tem a ver com o sugestionamento dos sentidos e um bom papo!

Aí vem um lance, mas e aquele rosé doce frutado da época do preconceito??? Bem, pegue ele e leve à mesa na hora da sobremesa, manda logo no prato um doce cítrico bem ácido e você vai viver uma das magias mais lindas do mundo do vinho, o balanço, o equilíbrio!

E páre de reclamar, se a vida te der um limão faça uma caipirinha??? Não, faça uma torta!!!! E se a vida só te der um vinho rosé doce, torça o nariz??? Não sirva ele com essa torta, aperte o play no CD da Norah Jones, frite a cabeça tentando descobrir quem veio primeiro o ovo ou a galinha e seja feliz! É tudo uma questão de equilíbrio, amizade e bons vinhos!

Enquanto isso vem a Sara [apos ler o texto da Camila] e me diz:

Estou na cozinha. Um caos. Comprei uma balança imaginando que agora posso pesar tudo que a vida me oferecer. Mas a vida é assim. Sempre uma surpresa. Eu de blusa rose, tomando um merlot. Descobrindo que um ovo tem 60g. Meio ovo tem 30. E eu finalmente posso fazer meia receita que exige um só ovo. Não sou de meias coisas. Mas não tenho queijo suficiente pra fazer uma receita inteira de pão de queijo. Mas a questão é eu achava que com a balança eu seria mais ponderada. Mas de repente me vejo rindo e chorando. Polvilho pra todo lado. Potes sem tampa. Um livro sobre consertar bicicletas. Ovo. Óleo. Queijo. Cascas de queijo. Um baralho. Um creme. Um filtro. Alho. Mas não vai alho no pão de queijo. War on drugs em alto som. Eu posso pesar tudo. Mas às vezes, eu não quero pesar. Eu quero ser surpreendida. Eu quero sair do eixo. Chorar na cozinha. Rir na cozinha. E agradecer por ter amizades que são como vinho e só ficam melhor com o tempo. E que com o tempo continuam a me emocionar. Amizade que completa o baralho sem curinga que está na minha mesa da cozinha.

Devaneios na cozinha!

É por isso que só existe 1 carta dessas em cada baralho, é por isso que raras vezes se joga um jogo com 2 baralhos e portanto raras vezes os curingas se cruzam. Mas eles podem completar uma canastra e fazer você ganhar o jogo!

Começamos falando de relacionamento interpessoais, lembramos dos vinhos compartilhados e dos livros largamente discutidos.

Nós nunca bebemos um merlot juntas e o post está pronto mesmo sem a receita de uma torta de limão ou a indicação de um bom rosé.

No entanto ela terminou uma taça de merlot acolá  e eu  terminei de encher a minha  taça desse lado de cá com, olha só mais uma ironia curinguistica, um vinho Zinfandel que veio de acolá!

E todos os dias eu Camila sigo pensando sempre na frase que você Sara, (ou foi a Ana – Não importa foi muito amor e virou lema) sempre me diz: A vida não merece meias garrafas!!!

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