sobre simpáticos e ranzinzas

We are looking for you“. Escreve a garota na janela do carro pérola coberto de neve. Noite de Valentine’s day e três garotas saem em busca do roommate desaparecido. Moço, é o seguinte, a gente precisa dele. Diz uma delas ao recepcionista da academia. Uma vai pra um lado, a outra pro outro e a terceira espera na porta. Nada dele. As três garotas decidem ir para o jantar sem ele. No caminho. Alô? Sim, era a gente procurando você, corre! Ele não viu as garotas o procurando, ele não ouviu o anúncio da recepção, não atendeu às ligações, não foi visto pelo rapaz da recepção que foi até o vestiário masculino, mas viu o recado na janela do carro. Aqui na casa onde moro bilhetinhos salvam vidas. Meia volta pra casa pra buscar o desaparecido. Uma dose de tequila pra cada antes do jantar. Pode tomar devagar para apreciar. Tequila 100% agave. Porque nesta cozinha só é permitido coisa boa. E mezcal não é 100% agave também? Ninguém sabe a diferença entre tequila e mezcal, só se sabe que o gosto é diferente, mas a matéria prima não. Talvez sejam de regiões diferentes, talvez sejam feitos de jeitos diferentes. Não dá tempo de descobrir, vamos perder a reserva (mas aqui neste blog simpático e ranzinza tem a resposta. Nota-se que nossas especulações estavam corretas).

Noite de Valentine’s day. Saímos da cozinha para jantar. O restaurante chama Maximos. Um nome um tanto exagerado pelo que serviam lá. O pão é incrível, feito lá mesmo e sempre disponível fresquinho no mercado aqui do lado. Pão de verdade, cascudo, com bolhas que indicam a fermentação cuidadosa. Mas pão regulado. Nunca vi regularem pão em restaurante italiano. Porém também nunca tinha visto colocarem cominho no homus. América, ampliando conceitos culinários desde seu descobrimento. Eu ficava pessoalmente ofendida com o que eles fazem aqui com a pizza. Até me deparar com homus. Homus de feijão, homus de alho, homus de alcachofra, homus de o-que-você-quiser basicamente. Mas o pior é o homus de grão de bico com cominho. Conclusão: homus = pasta. Fica mais fácil de viver assim. Aliás, pizza = prato. Também é mais fácil viver assim. Depois que eu vi – sim, com meus próprios olhos – colocarem mac & cheese em cima da “pizza” cheguei à conclusão de que pizza é sinônimo de prato feito de farinha. Se você pensar que “pizza” é só o local onde você apoia quaisquer ingredientes fica mais fácil. Se você pensar que a América é um local para ampliar conceitos também fica mais fácil.

Enfim. Voltando ao Maximos. O pão (regulado) é o máximo. Sentar numa mesa de verdade, cheia, com pratos, talheres, taças de vinho, copos de água também foi o máximo. Não direi o mesmo da carbonara. Aliás, ouvi dizer que a prova de fogo de um restaurante italiano é carbonara. Relutei a princípio. Afinal um restaurante italiano que não sabe fazer um molho ao sugo decente nem deveria existir (optei por manter este e outros trechos por mais arrogante que eu pareça. Desculpa, eu sou assim). Mas embora eu tenha sentido uma enorme tristeza comendo um macarrão com ovo mexido tenho que admitir que com carbonara você sabe tudo. Neste caso sei que o lugar se preza a usar ingredientes de verdade mas não preza pela consistência. Mas você também sabe se o lugar sabe controlar o sal que sai do bacon ou o que já vem com o queijo. Sabe se eles colocam creme (errado, é cilada!) para que você ache que eles chegaram na consistência certa. Sabe se eles decoram demais para que você se surpreenda com a cara antes de se decepcionar com o gosto. Enfim, você sabe se, com poucos porém bons ingredientes, o restaurante é capaz de servir uma massa perfeitamente crocante e cremosa ou uma massa totalmente desastrosa. Poucos ingredientes, muitas maneiras de errar e estou quase acreditando que carbonara é um teste robusto o suficiente.  E não preciso falar nada mais pois o simpático e ranzinza italiano deste vídeo já disse tudo que o mundo precisa saber sobre carbonara. E mais: no oil please quando for cozinhar sua massa.

Por falar em simpático e ranzinza, hoje eu vi meu pai fazer um café na nova máquina de expresso. Expresso de verdade. Aquele em que o café é moído na hora e submetido à alta pressão. Escorre cremoso e tem uma linda espuma em cima. Eu não sei quando eu me tornei esta pessoa. Que troca receitas pelas redes sociais. A quem os amigos mandam fotos de comida, de fogão, de panelas ou utensílios de cozinha. Só sei que hoje eu me tornei a pessoa que vê – pelo Skype – um café expresso sair da máquina. Amor remoto pela cozinha. Que fique claro que este não foi o motivo da minha ligação. Só sei que de repente eu estava lá. O barulho do moedor era música pros meus ouvidos e a espuma colírio para os olhos…

Ainda falando de simpáticos e ranzinzas eu ouvi uma palestra na universidade. De início fiquei tentando pensar de onde eu poderia conhecer aquele cara. Os óculos apoiados num nariz que me parecia familiar. As mãos falavam mais que a boca. O volume alto da voz que sai da boca. Sarcasmo e ironia incontroláveis combinados com uma arrogância típica de quem divide o mundo entre o certo e o errado. Familiar… Mas daí lembrei de uma professora que tive no mestrado. Alta. Fala alto. Mãos falam mais que a boca. Sarcasmo, ironia, certeza do certo e errado. Familiar… Mas não era da família não. Embora tudo aquilo me fosse familiar. Demorou uns bons minutos para eu perceber que de familiar só o jeito mesmo e não a pessoa. Lembrei da sensação de me perguntar de onde eu conhecia aquela professora. Lembrei da minha resposta. Logo percebi que eu nunca tinha ouvido antes aquele cara que falava sobre dinâmica de populações de pequenos mamíferos em paisagens fragmentadas. Aquele cara sabia do que estava falando. E aquele cara era sério mas não conseguia parar de ser irônico. Ironicamente, a maneira mais fácil de identificar um latino é que  a gente usa “agora estou falando sério” mais do que “estou apenas brincando”. Mas ele só era muito familiar. Ele quer um emprego aqui na universidade. Pensei em alertá-lo sobre a pizza. E sobre a carbonara. Mas não quis ser ranzinza. Ou simpática.

E pra terminar falando de simpáticos e ranzinzas. Estava em busca de uma receita de bolo de chocolate deliciosa que fosse vegana e sem glúten para que todos que aqui moram pudessem comer. Eu pesquisava, mas sempre relutante. Porque bolo de chocolate vegan e sem glúten delicioso era algo que não eu não acreditava que pudesse ocorrer. Mas isso é porque eu sou ranzinza. Um dia desses uma amiga me manda uma receita. É, eu sou dessas que troca receitas nas redes sociais. Começava com “é uma delícia viu”. Terminava com a recomendação de comer o bolo acompanhado de um vinho. Tinha calda de chocolate com azeite de oliva. Segui à risca (e você também pode seguir aqui). Era dessas receitas de bolo que eu gosto: mistura os secos, mistura os molhados, adiciona os molhados aos secos. Ela descreveu que era pra usar um fouet. Gosto de ter que usar o fouet. Também precisa de maple syrup.  Gosto de ter que usar maple.  Aliás, maple foi o tema da outra palestra da semana. Porque aqui é o Maine. E porque aqui no Maine eu tenho uma colega de laboratório que estuda produção de maple. Um fato curioso sobre o maple é que mesmo quando a palestra não é sobre ele, falam dele. Já ouvi em pelo menos duas palestras (sobre outros assuntos) falarem dele. A previsão é que, devido às mudanças climáticas, a distribuição da árvore se restrinja ao extremo norte da América. Infelizmente vai sobrar maple só pro Canadá.  E daí alguém faz piada com o Canadá. E daí alguém fala “estou apenas brincando”. E todos lamentam pela perda do maple. E alguém sugere: aproveitem enquanto vocês podem.

Naquela noite do Valentine’s day saímos do Maximos e voltamos para a cozinha.  Era a prova de fogo do bolo sem glúten e laticínios. 100% de aprovação na casa em que só é permitido tequila 100% agave.  Ganhei até abraço (abraço de verdade). Ficou todo mundo (muito) feliz. Porque comer aquele bolo de chocolate delicioso é sinônimo de felicidade. Aprendi que bolo de chocolate delicioso salva qualquer carbonara desastrosa. Sobrou bolo pro dia seguinte. E como aqui é uma casa em que bilhetinhos salvam vidas achei que tinha que deixar claro que o bolo estava lá pra todos comerem. Porque do mesmo jeito que é sempre bom anunciar “estou apenas brincando” percebi que é sempre bom anunciar de alguma forma que “esta comida é pra todo mundo”.

Gluten free and dairy free chocolate cake. Free 4 everyone. Free love”. 

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6 comentários sobre “sobre simpáticos e ranzinzas

  1. Espetacular!!!! A tempo, aprendi com amigos mexicanos que o mezcal é de Oaxaca, e a tequila de outra região (mas como ela é industrializada, ela pode ser produzida em outros lugares… na verdade, o agave continua vindo dessas regioes específicas). As espécies de agave de onde saem cada um é diferente, sendo que a do mezcal tem amis açúcar. E o mezcal é SEMPRE 100% agave, já a tequila não (ainda que existam algumas tequilas 100%).

    Sim, carbonara é a prova de fogo das massas italianas. Aprendi isso comendo um num hotel de um italiano em Itanhaém…

    Duvido desse bolo!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Curtido por 1 pessoa

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